Em união de orações,
E.M. Cíntia
Este blog reúne um pouco de tudo o que é bom, agradável e lícito. Em meio a um momento de crise na sociedade moderna, em um mundo tão competitivo, tão hedonista e tão sem Deus, torna-se necessário buscar um refúgio para se encontrar a paz. Pode ser uma conversa com um amigo, uma leitura agradável, uma oração piedosa, uma música bonita... São essas coisas simples da vida que nos dão alívio e conforto que quero dividir aqui, especialmente as que estão voltadas para o mundo feminino.
"Dá paz Senhor, a nossos dias porque não há outro que lute por nós, a não ser Tu, ó Deus Senhor nosso!"
(Da pácem, Dómine, in diébus nóstris quia non est álius qui púgnet pro nóbis, nisi tu Déus nóster!)
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"Vi-o pela última vez no Hospital das Clínicas de São Paulo. Depois de uma emocionante aventura, em que me parecida estar atravessando a cortina de ferro com passaportes falsos, consegui entrar na fortaleza das clínicas paulistas e graças à intervenção de um moço que... mas isto é outra história — cheguei ao quarto letra tal, número tanto, onde o velho modernista se refazia de recente e difícil operação na cabeça.
Magro, envelhecido, estava quase irreconhecível. O turbante manchado de sangue, que lhe envolvia a cabeça, tapando o olho direito, dava ao esquerdo uma redobrada ferocidade de pirata da Ilha do Tesouro. Quando entrei, a admirável Antonieta Alkmin atava-lhe ao pescoço um enorme guardanapo, e apressava-se a servir um prato de canjica cheio até a beira, que ele reclamava com rugidos de impaciência.
Quem é você? Gritou vendo-me entrar. Pregou em mim o olho disponível sem conseguir decifrar minha identidade na penumbra do quarto. Antonieta disse-lhe quem era, e logo o olho duro e metálico revestiu-se de uma doçura de hortênsia. Abraçamo-nos. Entre duas colheradas sorvidas vorazmente perguntava-me se estava escrevendo outro livro e interessava-se por meus projetos. Devorava a canjica, e devorava-me a mim, com a mesma grande fome, com a mesma grande boca aberta para a vida e para o mundo. Antonieta, a excelente e compassiva Antonieta, fazia-me agora por trás dele, sinais misteriosos. Apontava com insistência para a própria blusa e depois para o companheiro coroado de sangue. Entendi afinal que devia olhar para o peito de Oswald, e descobri então meia dúzia de santinhos pregados no seu pijama. Ali estavam as medalhas de nosso bravo corsário, as condecorações de suas últimas façanhas. Notando uma delas, uma humilde medalhinha milagrosa de alumínio, pedi à Virgem Santíssima que tomasse conta daquele filho voraz e que lhe ensinasse aquela passagem de seu cântico — esurientes implevit bonis¹ — que é um compêndio de filosofia antropofágica do céu. "
O Globo, em 4 de novembro de 1971
¹"Encheu de bens os famintos" (Lc 1, 53)
(Leia o texto integral: Encontros com Oswald de Andrade - http://www.permanencia.org.br/drupal/node/438)
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