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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ídolos

Eu não deveria estar escrevendo aqui, pois tenho muitos afazeres da faculdade para terminar neste final de semestre. Mas ontem aconteceu uma coisa que me fez meditar e que não poderia deixar de registrar aqui.

A soprano Renée Fleming
Ontem à noite fui assistir a um recital de uma cantora americana que gosto muito, Renée Fleming. Ao final da apresentação, ela foi para o hall do teatro e distribuiu autógrafos, como uma verdadeira prima donna. Como é de costume, fiquei observando a reação das pessoas. Umas estavam visivelmente emocionadas, outras agitadas, outras nem tanto. Vi pessoas na fila combinando o que falariam para ela, como agiriam na frente dela. Eu mesma fiquei meio nervosa ao falar com ela, tão boa no que faz e tão importante. Todos lá estavam bem vestidos, todos tinham se preparado para aquela noite com alguém tão famoso e especial. 

 Mais tarde, já em casa, naquele momento em que você deita na cama e tudo o que você passou durante o dia começa a ser processado em sua mente, me lembrei das apresentações nos teatros no século XIX. As grandes disputas entre atrizes e seus seguidores, como a entre lagruístas e chartonistas (respectivamente, admiradores da soprano italiana Emília La Grua e da mezzo francesa Anne Charton). Depois, lembrei dos fãs de hoje em dia, aficionados por atrizes, atores, cantores, personagens de livros, esportes e até zumbis... Enfim, pensei durante um bom tempo sobre a reação humana diante do objeto de admiração, muitas vezes de gosto extremamente questionável...

Anne Charton e Emília La Grua
Mas não é isso que eu quero destacar. O que me chamou a atenção foi outra coisa. Comecei a pensar que todos esses ídolos, sejam eles pessoas, zumbis, animais ou livros, são coisas do mundo, portanto passageiras. Mas mesmo assim, muitos se devotam a isso com uma determinação que não é vista para outros assuntos. Entre eles, o mais importante, o das coisas do Alto. Sim, as pessoas se preparam para estar diante de um ídolo, vestem-se bem, demonstram adoração, mas para coisas ou pessoas. Criaturas que um dia voltarão a ser pó. Enquanto, muitas vezes, ignoram que o Criador de todo o Universo é o único que merece tanta atenção. Não é que respeitar uma pessoa por um bom trabalho ou admirar uma obra bem feita seja algo errado. É óbvio que não. O problema é o exagero, temperado por uma emoção desenfreada, que cega a inteligência. Aquele fanatismo doentio e irracional.  


E como ficamos diante de Deus? Será que dou a Ele minha adoração e gratidão diariamente? Por que vou vestida à missa da mesma forma que me visto no dia a dia? Porque não me arrumar e ficar o mais digna possível para ir ao encontro do meu Senhor? Será que preparo bem minha alma para recebê-lo no Santíssimo Sacramento? Estou consciente da importância infinita do sacramento que recebo?  Será que minha postura é adequada diante do Rei dos reis? 

Vejamos o quão maravilhoso é o amor de Deus para conosco. Embora pobres pecadores, Ele está presente em todos os sacrários do mundo, esperando nossa visita. Ele se dá inteiramente a nós em cada Missa, o Santo Sacrifício, com toda Sua importância, grandeza e esplendor. Enquanto os astros desse mundo demoram meses ou anos para fazerem shows perto de nós, Nosso Senhor quis estar junto de nós diariamente. Ele quer que sejamos íntimos Dele, que O conheçamos para que O amemos e assim salvemos nossas almas. Não é magnífico tudo isso? Como não adorá-Lo? Como poder esquecê-Lo? Como substituí-Lo por criaturas, por objetos efêmeros e negligenciar a vida Eterna ao lado do Amor dos amores?

Salve Maria!

Irmãs Franciscanas da Adoração Perpétua, EUA

Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua, EUA

Irmãs Clarissas da Adoração Perpétua, Irlanda



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Reflexões de um fim de julho

Hoje foi meu último dia de férias. Ok, já é madrugada, então foi ontem. Mas, como eu ainda não dormi, pra mim ainda é hoje. Às vezes dá uma certa angústia me deparar com este ciclo interminável de aulas-férias-aulas-férias. Parece que minha vida se resume a isso há dezessete anos. Em breve, espero (?), terei também nesse grupo o "emprego". Estudar, trabalhar, breve descanso, estudar, trabalhar. Parece um eterno e imutável trinômio e isso me assusta. Trabalhar pra viver? Viver pra trabalhar?

Gostaria de fazer um curso de pintura, aprender francês e também uma atividade física, porque começo a perceber que isso é mesmo necessário. Queria ler mais o que eu quero, rezar mais, visitar lugares lindos, estar com as pessoas que eu amo. Passar mais tardes com meu irmão, dormir na casa da minha avó enquanto ela está entre nós, sair pra jantar com meu namorado e nossos amigos. Queria cuidar melhor das minhas plantas, me dedicar mais aos estudos do que me interessa. Mas não, não tenho tempo de conciliar tudo.

Trabalhar, acordar cedo, conviver pouco com a família e viver estressado são quase que virtudes hoje em dia. Se você não estiver dormindo na condução ou reclamando do congestionamento que você enfrentou para voltar pra casa você não deve levar a vida a sério, deve ser acomodado e ter tudo muito fácil. Não suportar esse ritmo louco de deveres extensos e tempo curto é frescura. Você não tem o direito de se sentir esmagado pelo mundo e ser contra isso, de gritar por uma pausa, de surtar um pouco. Isso é fraqueza, gente que não aguenta o tranco da vida de verdade.

  
Mas o que é a vida, na verdade? Se eu realmente, lá no fundo, acreditasse que ela se resume apenas a esse trabalhar-estudar-descansar pouco-trabalhar-estudar eu já teria me matado. Sim, pois isso é deprimente. É claro que não estou dizendo que devemos viver sem uma ocupação que nos garanta o sustento ou sem os estudos. O trabalho é importante e é até mesmo um dever, porém  ele é um meio, não um fim. O que vale mesmo nessa vida é o que teremos depois dela. Mas para chegar lá, temos de driblar todo esse materialismo que inunda nossos corações, resultado da ética protestante calvinista, do marxismo e do capitalismo selvagem, e focarmos (sem trocadilhos, por favor) na eternidade.

Mas por que isso é tão difícil? Por que é tão complicado se desvencilhar desse ciclo nauseante de correr contra o tempo para fazer um monte de coisas que, no final, não vão nos levar a lugar algum? O que será que nos impede de encontrarmos o equilíbrio entre nossos deveres neste mundo e o que vai nos levar ao Céu? Por que essa angústia e desânimo por um semestre que ainda nem começou?

Como sou fraca. Por mim mesma apenas, tenho nada.




quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pressa Juvenil

Sou jovem, eu sei. Mas às vezes sinto que vou explodir com tantos sonhos guardados que esperam o momento certo para acontecerem. Quero tanta coisa! Uma vontade doida de querer abraçar o mundo todo por mim mesma. Como posso já tão nova (se é o que dizem) e não ter tempo para fazer tudo o que quero e preciso? Como dormir no mínimo oito horas por dia, praticar exercícios físicos com regularidade, tirar boas notas na faculdade, ganhar meu sustento e manter uma vida social saudável com apenas 24 horas por dia? Juro que estou tentando, mas não sei.


Sinto-me como se estivesse com minha "matrícula na vida" amarrada. Sabe, quando você precisa concluir uma matéria para só depois de concluída você possa se matricular em outra, caso contrário, você acaba travando seu curso? É exatamente isso que ocorre comigo, mas em proporções muito maiores do que as acadêmicas. Como é difícil esperar, ter paciência. E meu sangue italiano nesse quesito não me ajuda nem um pouco... Mas sei que é preciso. Afinal, o que posso fazer além do possível? O impossível está nas mãos de Deus.

Talvez isso seja orgulho nosso. Sim, queremos controlar tudo, sermos donos de nossos próprios narizes e fazer tudo no nosso jeito, quando e como queremos. Por nós mesmos. Às vezes isso nem é consciente, mas impulsionado por esse ritmo maluco de vida que tanto critico e no qual nunca vou me encaixar. Mas como saber o que é melhor para nós se não nos conhecemos nem a nós mesmos direito? Não temos como prever o futuro e saber as consequências exatas de nossas escolhas, todas as mudanças, boas e ruins, que aconteceriam em nossa vida. O que fazer então?

Bem, para saber o que fazer, em primeiro lugar, deve-se saber o que não fazer. Não podemos confiar em nós mesmos. Não, não somos tão inteligentes e infalíveis para isso. Esqueça aquelas frases motivacionais vazias do tipo "Você consegue, confie em você!"  ou "Ouça seu coração, você sabe o que é melhor." Mas a verdade é que não, você não sabe. Nós não sabemos o que é melhor para nós porque somos limitados, nossas vontades são desordenadas, tendemos ao vício naturalmente. Logo quando crianças, bem pequenos mesmo, até sem saber falar, quando começamos fazer nossas pequenas estripulias e somos chamados à atenção por nossos pais, mesmo sem entender o que estamos fazendo, ficamos testando a tolerância deles. Como uma criança que fica tocando o forno e a mãe diz um "Não!" bem enfático. Sabemos que o ato que realizamos é algo ruim, pois fomos reprovados, mas queremos continuar para ver o que vai acontecer se nós decidirmos por nós mesmos, se seguirmos a nossa vontade.

Se não podemos confiar em nós, em quem confiar? A resposta é óbvia, mas às vezes fazemos questão de esquecê-la, assim como a criança que busca testar a paciência do pai. Confiemos em nosso Criador, pois apenas Ele conhece nossos corações, nossas reais necessidades e o melhor para nossa alma. (Eu disse alma, não na vida terrena. Porque se você é daqueles que pensa que Deus lhe dará tudo o que você pedir na vida sensível, material, você realmente não tem ideia do que nós estamos fazendo aqui neste mundo e deve ler um bom catecismo...).

Se abandonar na vontade de Deus não é fácil, pois ainda mais com o pensamento do mundo moderno, somos muito apegados a nós mesmos, aos prazeres e confortos meramente sensíveis. Mas que loucura! Como pensar tanto nos gozos terrenos e se esquecer dos gozos da eternidade, que serão infinitamente maiores, simplesmente porque veremos ao próprio Deus, o Sumo Bem?

Waiting by the window - por Carl Holsoe

Sim, preciso acordar do meu delírio cheio de sonhos deste mundo, pois talvez ainda não seja o melhor momento para que eles se tornem realidade. Talvez esses sonhos não sejam o melhor para mim. Talvez simplesmente eu deva ser forçada a esperar para aprender a ter paciência e a me submeter, justamente, Àquele que tem o direito a isso.



 “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17:5)


domingo, 26 de fevereiro de 2012

A maldição dos shortinhos

De uns dois anos pra cá, uma nojenta moda se instalou nos guarda-roupas femininos. Eu até tinha esperanças de que seria apenas mais uma febre que na próxima estação iria passar. Mas não passou, pelo contrário. Os shortinhos hoje podem ser vistos pelas ruas tanto em dias de calor intenso ou nos dias bem frios, acompanhados de meias-calças. E não são apenas mocinhas que usam isso, o que já seria bem triste, mas mulheres feitas utilizam essa peça, que se assemelha mais a uma roupa de baixo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. 

Sério, eu tenho vergonha alheia por isso. Elas ficam tão expostas, chamam tanta atenção. E não é só vergonha, mas sinto pena delas também. Pena pelas que não tem consciência do mal que estão causando e apenas o fazem por serem escravas da moda. E pena pelas que conscientemente querem atrair olhares para si, por serem tão carentes de atenção. Em ambos os casos, as mulheres estão ferindo sua dignidade, usando uma peça de roupa que, há algum tempo atrás, só seria possível em prostitutas. Vejam até que nível baixíssimo a moda pode nos levar se não nos pautarmos pela modéstia pedida por Nosso Senhor...


Como já dito, essa moda atingiu a mulheres de todas as idades, desde as meninas ainda crianças até mulheres bem adultas. São tantas cenas absurdas que vemos, muitas até beiram o ridículo por serem tão deselegantes e ferirem tanto o pudor. Há até uma peça bizarra dessas que possui os bolsos maiores que a própria perninha do short! Sem dúvida essa é uma das modas que ofendem a Nosso Senhor, como disse Jacinta, uma das pastorinhas de Fátima, antes de morrer ("Virão certas modas que ofenderão muito a Nosso Senhor").

Essa decadência moral feminina é extremamente destrutiva para a sociedade. Uma filha um dia se tornará esposa e a esposa uma dia, mãe. E uma mãe sem virtudes não poderá educar sua prole de maneira diferente. Assim, forma-se um ciclo de transmissão de vícios e de imoralidade. Em um ambiente tão hostil como esse, é quase impossível a manutenção de uma sociedade cristã, católica.

A atuação da mídia na corrupção dos costumes é escancarada, porém é imperceptível para muitos, já que essas mudanças foram sendo introduzidas aos poucos. Em seu artigo "As Modas indecentes e a Maçonaria", Dom Tomás de Aquino mostra um pequeno exemplo dos objetivos funestos dessa organização  e suas ações veladas: 

 Num livro editado em 1931 que reúne os 100 primeiros números da antiga publicação “Raios de Sol” encontramos as seguintes informações sobre o papel da maçonaria na corrupção dos países católicos.“Persuadamo-nos intimamente de uma coisa: no dia em que tivermos o apoio e auxílio da mulher, então, e só então, seremos realmente vitoriosos das superstições; mas enquanto não tivermos conseguido arrancar e subtrair as nossas filhas aos ensinamentos da Igreja, os nossos esforços ficarão infrutíferos, condenados a um deplorável malogro.”
E o que queriam estes ilustres maçons das mulheres? Eles queriam que elas não fossem mais as educadoras, mas sim as corruptoras do gênero humano.

Sabendo de tudo isso, rezemos pela dignidade das mulheres. Afastemo-nos das modas do mundo e tenhamos sempre Maria Santíssima como nosso modelo de virtudes. E não nos esquecemos que, como também disse Jacinta, as modas são passageiras, mas Nosso Senhor é sempre o mesmo- seja 2000 a.C. ou 2050 d.C.


Santa Teresinha menina com sua mãe, Zélie Martin.
Virtudes e modéstia que passaram de mãe para filha.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Silêncio...e paz



O uso da palavra paz sempre me incomodou muito. Mesmo sem ter uma formação sólida, percebia fácil o quanto ela era banalmente usada. Era, e continua, um lugar comum, que abrange qualquer coisa, que pode ser usado em qualquer ocasião. Todos desejam a paz, um mundo de paz, de amor, de fraternidade, de igualdade, de...bem, é fácil saber como isso termina. Em nada, em um vazio tão grande, de significado tão rarefeito que é impressionante o quão indistintamente essa palavra é usada por qualquer pessoa! Como o ser humano pode aceitar tal esvaziamento de sentido?



As três imagens ao lado são as primeiras que encontramos no Google quando digitamos paz e refletem bem o que quero dizer. As mãos unidas, formando o globo terrestre, representam a paz mundial, um mundo unido, sem guerras, fraterno, igualitário, livre... A cruz do tipo "pé de galinha", que a maioria só conhece como símbolo de "paz e amor" dos hippies, é na verdade um símbolo usado por feiticeiros e satanistas. Uma escolha bem interessante a dos hippies, não? Já a pomba branca é lembrada como a manifestação do Espírito Santo em passagens bíblicas, em episódios como o da Arca de Noé ou do batismo de Nosso Senhor. É muito preocupante a associação entre esse símbolo sacro e a moderna definição de paz. Isso faz com que o símbolo seja banalizado, esvaziado de seu sentido original e utilizado para propagar novas ideias. Se antes o Espírito Santo era associado à Fortaleza que mantinha na Fé os soldados de Cristo, hoje ele é tomado como uma força de amor, um sentimento profundo, algo meramente sensível, e não racional, que faz todos se sentirem bem, unidos, desmedidamente tolerantes e "em paz".


Mas afinal, o que devemos entender como paz realmente? A paz é o resultado da justiça (no brasão de Pio XII: Opus Justitiae pax), de quando cada um cumpre com seu dever e tem garantido o que lhe é de direito. Portanto, a paz não é apenas um estado de tranquilidade, de ausência de guerras ou conflitos, mas sim o resultado da ordem. Por isso que Santo Agostinho a define como "tranquilidade na ordem". A verdadeira paz, a paz de Cristo, e não do mundo, nos foi tirada pelo pecado original, que causou um estado de desordem incalculável em toda a Criação. Afinal, como poderia ser diferente quando a criatura ofende seu Criador? Que injustiça maior que essa, que o pecado?


Devemos buscar a paz. Não aquela de pacifistas sentimentaloides com slogans repetidos, mas a de Cristo. A paz plena só encontraremos no paraíso, onde a ordem está estabelecida. Estaremos livres de todo o pecado, nossas dívidas estarão pagas e estaremos reconciliados plenamente por toda a eternidade com Nosso Criador. Mas, para isso, a busca pela paz deve começar aqui no mundo. Devemos nos esforçar para abandonar o pecado, receber frequentemente os santos sacramentos e devotarmos toda nossa vida no cumprimento da vontade de Deus.

Nesse feriado tão nojento de carnaval, o que eu vou fazer é procurar a paz. Sumir do mundo por cinco dias e me resguardar no silêncio completo. Porque com o silêncio, buscarei ordenar minha mente e meu espírito. Através do silêncio quero obter a paz. A verdadeira, a de Cristo. Rezem por mim!



Que a paz esteja com teu espírito!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Só acaba quando termina

Outro dia conversava com uma amiga católica sobre os vários artistas e estudiosos que já passaram por este mundo e eram admiráveis pela sua genialidade, mas que foram seduzidos pelos males mundanos ou por ideologias tortas. É muito triste pensar que tantas mentes brilhantes possam ter tido suas almas perdidas por todo o sempre. Algumas até chegaram bem perto da Verdade, mas ainda havia um véu que as impedia de vê-La. Às vezes, até notamos casos semelhantes entre nossos professores, do colégio ou da faculdade. Alguns deles destacam-se por serem empenhados em seus estudos, de forma séria e quase imparcial, mas ainda assim não conseguem se desvencilhar de muitos erros.

Gustavo Corção
Não podemos nos esquecer porém de que houve também aqueles que conseguiram abrir os olhos e desembaçar suas vistas. Os mais lembrados são os queridos G. K. Chesterton, J. R. R. Tolkien e Gustavo Corção. O último, aliás, travou amizades com inúmeros intelectuais brasileiros de peso, embora com orientações ideológicas diversas, e recebeu deles admiração e respeito. O trecho a seguir é de sua autoria e é um exemplo a ser meditado. Nele, Corção relata seu último encontro com o escritor Oswald de Andrade, o qual estava muito enfermo e ciente de que o dia de sua morte estava próximo.

"Vi-o pela última vez no Hospital das Clínicas de São Paulo. Depois de uma emocionante aventura, em que me parecida estar atravessando a cortina de ferro com passaportes falsos, consegui entrar na fortaleza das clínicas paulistas e graças à intervenção de um moço que... mas isto é outra história — cheguei ao quarto letra tal, número tanto, onde o velho modernista se refazia de recente e difícil operação na cabeça. 

Magro, envelhecido, estava quase irreconhecível. O turbante manchado de sangue, que lhe envolvia a cabeça, tapando o olho direito, dava ao esquerdo uma redobrada ferocidade de pirata da Ilha do Tesouro. Quando entrei, a admirável Antonieta Alkmin atava-lhe ao pescoço um enorme guardanapo, e apressava-se a servir um prato de canjica cheio até a beira, que ele reclamava com rugidos de impaciência.

Quem é você? Gritou vendo-me entrar. Pregou em mim o olho disponível sem conseguir decifrar minha identidade na penumbra do quarto. Antonieta disse-lhe quem era, e logo o olho duro e metálico revestiu-se de uma doçura de hortênsia. Abraçamo-nos. Entre duas colheradas sorvidas vorazmente perguntava-me se estava escrevendo outro livro e interessava-se por meus projetos. Devorava a canjica, e devorava-me a mim, com a mesma grande fome, com a mesma grande boca aberta para a vida e para o mundo. Antonieta, a excelente e compassiva Antonieta, fazia-me agora por trás dele, sinais misteriosos. Apontava com insistência para a própria blusa e depois para o companheiro coroado de sangue. Entendi afinal que devia olhar para o peito de Oswald, e descobri então meia dúzia de santinhos pregados no seu pijama. Ali estavam as medalhas de nosso bravo corsário, as condecorações de suas últimas façanhas. Notando uma delas, uma humilde medalhinha milagrosa de alumínio, pedi à Virgem Santíssima que tomasse conta daquele filho voraz e que lhe ensinasse aquela passagem de seu cântico — esurientes implevit bonis¹ — que é um compêndio de filosofia antropofágica do céu. "

O Globo, em 4 de novembro de 1971
¹"Encheu de bens os famintos" (Lc 1, 53) 
(Leia o texto integral: Encontros com Oswald de Andrade - http://www.permanencia.org.br/drupal/node/438
  
Por mais que nos afastemos da graça de Deus, Sua misericórdia para com o pecador arrependido é infinita. Para nos salvar, Nosso Senhor desceu até as profundezas dos infernos. Assim, peçamos ardentemente a Ele, por intermédio de Maria Santíssima, pela conversão dos pecadores e pelas aflitas almas do purgatório, pois até o último suspiro, há a esperança do arrependimento final. 

Pátio com Coração de Jesus - Tarsila do Amaral

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

"To be or not to be a feminist?" A escolha é sua.

É muito comum, principalmente entre os grupos feministas, o uso de uma camiseta com os dizeres This is what a feminist looks like ("É com isto que uma feminista se parece"). Bem, vejamos alguns exemplos de pessoas que usam essas camisetas...




Ao ver isso, uma moça americana (Lizzy) que pensa diferente disso resolveu criar outras imagens para mostrar seu ponto de vista.Vejam agora com o que uma anti-feminista se parece...









E então, qual a sua escolha?
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, que levantarei o mundo de seus eixos"

Santa Teresinha aos 8 anos.
Uma das maiores provações que passamos nos dias de hoje, com tantos afazeres que temos em tão pouco tempo, é encontrar um momento propício para a oração. Às vezes tento fazer minhas orações no metrô, pela manhã, mas é tão fácil distrair-me! Pessoas conversando, música alta nos celulares, o entra e sai de pessoas. Tudo em uma velocidade perturbadora, que dificulta muito nossa concentração em nossas preces.

É difícil mesmo conseguir encontrar pequenos momentos de paz durante nosso dia. Por isso, os padres aconselham muito que em situações como essas, em que não temos tempo ou ambiente para uma oração mais longa, façamos as pequenas jaculatórias. Apesar de serem breves, quantas graças podemos receber ao rezá-las! Se tivermos bons livros de piedade (geralmente os antigos, antes dos anos 60) podemos ver ao lado dessas orações os dias de indulgências que estas propiciam.

No último de seus manuscritos autobiográficos, que foram reunidos no livro História de uma Alma, santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face fala-nos sobre a importância da oração para as conquistas de grandes santos. Para soerguermos o mundo, isto é, chegarmos à santidade, basta segundo ela usar como ponto de apoio Nosso Senhor e, como alavanca, a oração:

Como santa Madalena, conserva-se indubitavelmente aos pés de Jesus, a escutar-lhe a palavra doce e ardente. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, a qual se atormentava com muitas coisas, e queria que a irmã a imitasse. Não são as ocupações de Marta que Jesus censura. A tais ocupações, sua divina Mãe humilde se sujeitou toda a sua vida, pois tinha que preparar as refeições para a Sagrada Família. Queria apenas corrigir a inquietação de sua ardorosa hospedeira.

Santa Teresinha enferma. Restava pouco para seu retorno à Pátria Celeste.
Isto foi compreendido por todos os Santos, de modo mais particular, talvez, pelos que encheram o universo com a luminosidade da doutrina evangélica. Não foi na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos, e tantos outros ilustres amigos de Deus hauriram a ciência divina, que arrebata os maiores gênios? Disse um sábio: "Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, que levantarei o mundo de seus eixos". O que Arquimedes não pôde alcançar, porque sua solicitação não se dirigia a Deus e se colocava num ponto de vista material, obtiveram-no os Santos em toda sua plenitude. Como ponto de apoio, deu-lhes o Todo-poderoso a SI MESMO, E SÓ A SI MESMO; como alavanca: a oração, que incandesce com o fogo do amor, e foi desta maneira que soergueram o mundo. Assim é que os Santos ainda militantes o soerguem, e os Santos vindouros o soerguerão, e até o fim do mundo.

Nunca leu História de uma alma? Baixe-o AQUI.


A serena expressão de Santa Teresinha morta.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"Roma, toda a cristandade o mundo espera em ti!"




Sábado passado, dia 13, fui à segunda Peregrinação da Tradição a Aparecida. Novamente (veja a do ano passado) caminhamos alguns quilômetros pela estrada para professar publicamente nossa fé e honrar Maria Santíssima. Em especial, neste ano, nossos sacrifícios e orações voltaram-se à mensagem de Fátima e ao pedido de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

No fim do dia, já em Aparecida, uma missa solene foi celebrada. E, no rico sermão, o padre deixou clara a necessidade primeira da conversão da Roma modernista, para que assim pudesse ocorrer a conversão da Rússia.

É triste chegar à conclusão de que Roma deixou de ser a Roma que sempre foi, que já não é mais a mesma. E isso é muito grave, pois a influência da romanidade na liturgia, na espiritualidade e na teologia católica é incontestável. Logo, se Roma está doente, toda Igreja adoece. Porém, ao invés de cisma, essa afirmação mostra o amor necessário do católico à Roma, ao Papa, e à Igreja de sempre.

Em uma conferência dada aos seminaristas de Ecône, em janeiro de 1979, Dom Lefebvre esclarece:

Não se deve, pelo fato de existir enfermos ao nosso redor, na Igreja, pela autoridade estar enferma, dizer que esta autoridade já não exista. Apesar de estar enferma, precisamente por isso, temos que tentar mostrar o remédio, e tentar fazer algum bem. Esta foi a atitude daqueles que, na Igreja, ao longo da história, resistiram a Roma, ao Papa, aos bispos, às heresias que se sucederam na Igreja, que se difundiram na Igreja, através da Igreja. (...)Queremos professar nossa fé. Queremos agir de tal forma, que a gente se prepare para receber a graça do batismo ou da abjuração de seus erros. Por isso vou a Roma. (...)Então diz-se: “Vossa Excelência não deveria ir a Roma. Não deveria ir a Roma porque não são nada, e portanto, não tem que visitá-los”. Mas, o que é isto? “Não são nada. Nada”. É inimaginável! Não. Em todo caso, não é o espírito dessa casa. Não é o espírito da Fraternidade.  
 
 Assim, nestes tempos de crise, nós católicos somos obrigados a guardar a romanidade de sempre da Igreja, sem cismas, mas não aceitando novas doutrinas. Isso é amar a Deus, é amar Sua Igreja, é amar o Santo Padre.

Nas notas complementares de seu último livro, A Vida Espiritual segundo São Tomás de Aquino, Dom Lefebvre explica também "a escolha providencial de Roma como cátedra de Pedro e os benefícios dessa escolha para o corpo místico de N. S. Jesus Cristo". Segundo ele, é inegável o fato da influência romana na Igreja ser providencial. Em Sua sabedoria infinita, Deus preparou Roma para se tornar a cátedra de Pedro e o centro de irradiação do Evangelho.

A Romanidade não é uma palavra vã. A língua latina é um exemplo importante. Ela levou a expressão da fé e do culto católico até os confins do mundo. E os povos convertidos eram firmes em, nessa língua, cantar sua fé, símbolo real da unidade da fé católica. Os cismas e as heresias começaram frequentemente por uma ruptura com a Romanidade, ruptura com a liturgia romana, com o latim, com a teologia dos Padres e dos teólogos latinos e romanos.


É esta força da fé católica, enraizada na Romanidade, que a Maçonaria quis fazer desaparecer ocupando os Estados Pontificais e encerrando a Roma católica na cidade do Vaticano. Esta ocupação de Roma pelos maçons, permitiu a infiltração do modernismo na Igreja e a destruição da Roma católica pelos clérigos e os Papas modernistas, que se apressaram em destruir todo vestígio de Romanidade: a língua latina, a liturgia romana.

(...) tenhamos gosto em examinar como os caminhos da Providência e da Sabedoria divina passam por Roma e concluiremos que não se pode ser católico sem ser romano. Isto se aplica também aos católicos que não têm a língua latina nem a liturgia romana; se permanecem católicos é porque permanecem romanos.(...) Também nós devemos guardar esta Tradição romana querida por Nosso Senhor, como Ele quis que nós tivéssemos Maria Santíssima por Mãe.

Assim, apesar de todo o contexto desolador em que vivemos, não podemos deixar de rezar pela Santa Igreja, pelo Santo Padre e por Roma, para que sejam verdadeiramente fiéis à Sagrada Doutrina transmitida por Nosso Senhor. Como leigos, essa não é somente nossa única ação possível, mas é também nosso dever. E, em meio aos horrores que vivemos em nosso país, como a proliferação das seitas protestantes e da legalização da união civil de pessoas do mesmo sexo, depositemos também nossas súplicas pelo Brasil a Nossa Senhora Aparecida, para que nosso país reencontre sua alma católica.



sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cada um tem um mundo dentro de si

Ultimamente tem sido difícil manter as publicações do blog constantes, como vocês já devem ter percebido. O temido final de semestre se aproxima, as tarefas da faculdade se acumulam, o tempo é escasso e, além disso, fora da vida acadêmica, algumas responsabilidades também aumentam. Há alguns meses, comecei a corrigir redações de alunos  para um colégio da cidade. Apesar do tempo necessário que se leva para realizar um bom trabalho, essa nova atividade tem valido a pena. Não, não tenho um retorno financeiro invejável. Apesar de ser uma fonte de renda, essa não é a principal razão para que o fato de eu corrigir redações me seja agradável.

Ao ler essas páginas, tenho acesso às informações do que se passa na mente desses jovens, dos seus sentimentos, das suas histórias, dos seus diversos modos de enxergar o mundo e a vida. Não são simples dados, sem significância. Também não passo a caneta vermelha riscando qualquer coisa em um papel. Apesar de serem simples manifestações da escrita em idade escolar, esses textos revelam os sistemas de valores de seus autores e, ao ler esse conjunto variado, tenho uma certa noção da alma e da mentalidade desses indivíduos em formação. Quando digo alma, não me refiro ao seu estado de graça ou não, mas às inclinações e às peculiaridades que são próprias a cada personalidade.

É muito curioso notar as semelhanças e as diferenças entre os textos. O formato da letra, a pressão da tinta no papel, a escolha das palavras, os modos de organizar os diversos elementos da sentença e o conteúdo dos textos formam uma combinação única a cada aluno, mas que às vezes se mescla com a de outro colega. As letras mais bonitas geralmente são de meninas, assim como os textos mais bem articulados. Mas há, de vez em quando, alguns meninos que fogem à regra e, quando surpreendem, o fazem  a valer.

Um tema sobre o qual eles escreveram, e que foi muito interessante ler os resultados, foi a descrição de uma cena que tenha sido importante na vida deles. Esse tema mostrou-me o quão distorcidos estão os valores da sociedade e como eles já estão se cristalizando na mente dos jovens, sendo considerados normais. Além disso, o desconhecimento da verdadeira religião, e até mesmo a aversão a qualquer uma delas, deixam suas marcas nas redações que li. Uma delas, foi a de um garoto, contando que ficou surpreso ao ver duas moças se beijando na boca perto da escola. Mas, depois de refletir um pouco, concluiu que elas eram muito corajosas por enfrentarem o "preconceito" e que não havia nenhum problema naquela atitude, pois elas deviam se gostar de verdade.

Outra redação, de uma menina, contava a tristeza que sentiu quando os pais lhe contaram que iriam se separar. Mas que hoje, ela vê que isso foi o melhor e está feliz, pois a nova "esposa" do pai está grávida e o "namorado" da sua mãe é muito bonzinho com as duas. Havia também uma, de outra garota, que contava como foi importante seu primeiro "namorado" quando ela tinha 14 anos...

Apesar dessas histórias tristes, li também algumas alentadoras, que são verdadeiras sementes de esperança nesse deserto que é o mundo. Numa delas, um menino contava feliz do nascimento da irmãzinha e dos detalhes desse dia especial que o marcou tanto. Outro, falou das férias que passava no sítio dos avós durante a infância. Contou minuciosamente dos detalhes da casa, do cuidado da avó com a comida, o cheiro de café, as pescarias com o avô num lago próximo. Aliás, muitas foram as redações que falavam sobre os avós. Uns, já falecidos, com uma narrativa repleta de saudades, outros ainda vivos, mas doentes ou enfrentando a viuvez. 

Uma redação que se destacou foi a de um garoto contando os últimos meses de sua madrinha, que falecera devido a um câncer. Foi lindo o relato das lembranças dele com ela e ficou muito clara a importância desse laço sacramental que une padrinhos e afilhados. E, em contrapartida ao rapaz que escrevera elogiando a coragem das moças que se beijavam, um outro menino, que aliás escrevia muito melhor que o primeiro, relatou, inconformado, o momento chocante em que viu duas mulheres trocando beijos imorais no metrô com a maior naturalidade.

Cada um tem um mundo dentro de si que o revela quando escreve. Quando corrijo essas redações, deparo-me com um pedacinho de cada uma dessas almas e, mesmo que nem sempre o que descobrimos seja ordenado e virtuoso, é maravilhoso mergulhar nessas ideias, histórias e sentimentos. Afinal, depois de quase ter perdido a esperança e de ter ficado com o coração apertado ao ver almas tão jovens defendendo o erro, aparece uma que vai na direção contrária e nos conforta, nos enche de esperança. Uma verdadeira consolação de Nosso Senhor.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

As ameaças ao gênero humano - roguemos à Virgem de Fátima!

Ainda crianças, durante as primeiras aulas de Ciências, aprendemos um dos conceitos mais básicos da natureza: o ciclo da vida. Ouvir que “os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem” parece-nos, depois de tanto tempo, algo muito óbvio. De fato o é, mas essa postura tão certa diante dessa afirmação não é mais unânime. Agora, até as leis tentam nos empurrar goela a baixo o que é claramente antinatural...

De forma mais evidente do que nunca, o desenvolvimento humano está ameaçado. Todos os processos naturais sofrem hoje o risco de serem alterados ou interrompidos bruscamente. Assim, a defesa do aborto surge para impedir o nascimento, os métodos contraceptivos e a exaltação do vício homossexual visam impossibilitar a reprodução humana e a permissão para a prática da eutanásia faz da morte uma decisão humana, não natural.

Além disso, de modo mais sutil e, por isso, nem sempre tão fácil de perceber, as fases do crescimento do indivíduo, sua infância e juventude, sofrem distorções terríveis para que as referidas inversões de valores sejam aceitas e praticadas desde cedo. Para isso, a mídia contribui enormemente, seja com a intensa publicidade que transforma os pequenos em monstrinhos ávidos por bens materiais, seja pela programação “infantil” que é transmitida pelas emissoras de televisão – desenhos animados com personagens agressivos e com um linguajar detestável, apresentadoras mal vestidas, filmes com simbologias anticristãs implícitas, ou pela baixíssima qualidade musical e moral dos artistas lançados pelas indústrias fonográficas.

Que tempos tristes vivemos! Tempos em que a inocência, o decoro, a educação e a pureza tornaram-se motivo de piadas, e não virtudes a serem praticadas. Como é triste ver que tantas almas, desde cedo, caminham para o abismo da infelicidade, para o vazio do mundo. E, o pior, com o patrocínio de quem deveria elevar essas crianças e jovens.

Vendo então todas essas ameaças ao gênero humano, torna-se mais do que nunca necessária a devoção à Santíssima Virgem. Em especial hoje, recorramos a Nossa Senhora de Fátima, que nos alertou tão seriamente da necessidade de oração e penitência para a salvação das almas em meio a tantas ofensas a Deus. Rezemos a ela com todo fervor pelas intenções da Cruzada de Terços e pelo triunfo do seu Imaculado Coração!
  
 O vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé .” ( I Pe 4,8-9)



Inversão de valores
  

 Muitas caras e bocas pra quem tem só 12 anos


 Combinação de imodéstia com desleixo


X

 Menina brincando e vestida como menina



 A delicadeza e a modéstia próprias das moças

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sinestesia

É incrível como algumas sensações marcam determinadas cenas de nossas vidas. Os sentidos estão ligados à nossa memória e, através deles, podemos reviver certas lembranças. 

Há pessoas que são mais sensíveis a esses detalhes e têm facilidade para criar conexões entre diferentes planos sensoriais. Posso dizer que sou uma delas. Para mim, os gostos, os cheiros, os sons e as imagens  se confundem em minha cabeça e são sempre associados aos momentos da minha vida. Como é gostoso brincar com os sentidos!

O texto a seguir mostra bem isso, além de trazer a saudade de bons tempos. Ofereço-o ao meu querido, que também é sensível a essas impressões e ama as coisas simples e belas da vida. 


Recordações 

Estação Mogiana, 1890
Eu estava excitadíssimo, coisa própria de um menino que contava 10 anos.

A velha estação da Mogiana era fascinante. Suas paredes eram feitas de tijolos à vista, e os arcos de ferro fundido que sustentavam o teto exibiam o capricho que os Ingleses tiveram nas construções das nossas ferrovias.

O pátio de manobras abrigava diversas locomotivas a vapor e outro tanto de vagões de diversos tipos. Alguns transportavam gado, outros, mercadorias, e até havia alguns próprios para transportar a lenha utilizada pelas locomotivas carinhosamente chamadas de Maria Fumaça. Mas eram os vagões de passageiros que fascinavam. Pintados de vermelho, janelas com vidros enfeitados com arabescos, tudo limpo e bem arrumado, poltronas protegidas com capas brancas.

Aqui e ali, locomotivas faziam manobras empurrando, puxando, trocando vagões de lugar. Parecia uma brincadeira de crianças.

Minha vontade era de sair correndo e ver tudo de bem perto. Meu avô, sentado em um banco de madeira com pés de ferro, como sempre, estava calado. Seu silêncio, entretanto, falava mais do que se estivesse conversando. Um olhar era o bastante para eu entender que deveria ficar sentado e quieto.
Meu coração batia descompassado.

Dentro de algum tempo deveria chegar o trem que vinha de Campinas e com ele alguns parentes. Meus tios que estavam para chegar eram a personificação da bondade e carinho. Eu os adorava.
Observei meu avô: sério, compenetrado, tomando seu cachimbo preferido com gestos compassados e elegantes, colocou no seu fornilho uma lapada de tabaco.

Ao acender o fósforo e chegá-lo ao cachimbo um cheiro delicioso se espalhou pelo ar. Eu conhecia bem aquele perfume.
Muitas vezes, bem antes de eu chegar à sua casa, já de longe percebia aquele cheiro. Era claro que o meu avô estava em casa.

Ali na plataforma da estação, o cheiro das máquinas, dos vagões, de tudo enfim fazia coro com o cheiro do cachimbo do meu avô.

Acomodado no banco eu aguardava o sinal da campainha anunciando que o trem partia da última estação.
De repente, um sinal estridente anunciava que o trem estava para chegar.
Com o olhar fixo na curva, aguardando o monstro de ferro aparecer, soltando fumaça e vapor, eu não tinha como não perceber o cheiro do cachimbo.
Na minha mente ficaram impressas para sempre as emoções daquele momento. E com certeza a moldura dessas reminiscências foi o perfume do cachimbo.

Hoje, após mais de meio século, nas tardes em que eu preparo o meu fiel cachimbo para alguns minutos de reflexão e calma, o cheiro do tabaco queimando leva o meu pensamento àqueles momentos inesquecíveis. Está para sempre impresso na minha retina: meu velho avô com seu cachimbo. E essa imagem mágica toma força quando eu rendo silenciosamente a minha modesta homenagem... acendo um fósforo e respiro o perfume da saudade.


Nelson Lopes de Paula